Tradições e Cultura
TRADIÇÕES
Freguesia beirã com fortes tradições religiosas, ainda hoje existem em Maçainhas diversas festas e romarias celebradas nas diferentes aldeias que a constituem. Estas festividades funcionam como forma de louvor e de agradecimento das gentes da freguesia e da região aos Santos Padroeiros de cada um dos lugares, a saber:
- Chãos - festa em honra de Santa Maria Madalena, celebrada na segunda semana de Agosto;
- Cubo - festa em honra de Nossa Senhora da Póvoa, celebrada no primeiro fim de semana de Junho
- Maçainhas - festa em honra de Santo António, realizada a 13 de Junho
- Freguesia - Festa em honra de Santa Eufêmia, celebrada no domingo a seguir ao 16 de Setembro.
Para além destas celebrações que se realizam todos os anos, também se realiza mais esporadicamente, e muitas vezes por motivo de promessa, a festa em honra do Divino Espírito Santo.
Para além da forte componente religiosa que as caracteriza, estas festas são também acompanhadas de actividades culturais, recreativas e desportivas e têm, normalmente, a duração de dois ou três dias.
LENDAS TÍPICAS
Lenda de Nossa Senhora da Fumagueira
À invocação de Nossa Senhora da Fumagueira anda ligada a lenda popular da praga das formigas.
Antigamente, Maçainhas de Baixo encontrava-se situada na encosta voltada a nascente, no local onde hoje está a igreja, distante cerca de meio quilómetro de Maçainhas de Cima.
Uma praga violenta de formigas infestou o local e obrigou os habitantes a abandonar os seus lares e a fixar-se a alguma distância da igreja.
Valeu-lhes Nossa Senhora para não serem incomodados pelas formigas no Local onde assentaram as novas moradas e por isso a invocaram sob o nome de nossa Senhora da Fumagueira.
Pensa-se que o nome de Fumagueira poderá ter vindo da palavra fumaceira porque é costume antigo afastar as formigas com fumo, queimando os ninhos e as sementes. Assim terão feito os habitantes de Maçaínhas e da palavra fumaceira veio fumagueira, pelo abrandamento do "c" intervocálico, alteração muito usual na derivação portuguesa.
Conta-se ainda que os habitantes construíram uma capela no local da nova povoação para onde levaram a imagem de Nossa Senhora venerada na igreja mas, sendo transportada num dia à tarde, na manhã seguinte apareceu novamente na sua velha igreja no local infestado pelas formigas - cena que se repetiu durante três dias seguidos.
Lenda do Barroco do medo
Conta-se que numa quinta, que hoje se denomina "Quinta do Ronfrio", num dia de matança, houve um senhor que apostou com os colegas à hora de jantar em como era capaz de ir montado a cavalo até junto de um barroco a que ainda hoje se chama "Barroco do medo". Os colegas aceitaram a aposta e ele lá foi montado no seu cavalo até ao misterioso barroco.
Tendo lá chegado o corajoso senhor perguntou ao dito barroco:
- Ó medo! Sai cá fora.
Foi então que uma voz lá de dentro respondeu:
- Espera aí que estou a calçar as botas!
O homem ficou muito aflito, e logo dali fugiu tão cheio de medo, que, por azar, se esqueceu de se apear do cavalo quando ia entrar com ele para a loja, e assim bateu com a cabeça na soleira da porta, e ali caiu morto, quem sabe pelo próprio medo...
DANÇAS E CANTARES
Freguesia de forte actividade agrícola e de grande tradição religiosa, Maçainhas é constituída por terras ricas em danças e cantares que antigamente aconteciam ligados às tarefas do campo, às festas e romarias.
Essas danças e os cantares têm sido recolhidos e preservados pelo Rancho Folclórico de Maçainhas e pelo Grupo de Cantares que têm procurado divulgar tão importante herança, incluindo os cantares nos seus repertórios.
Todas essas danças e cantares foram recolhidos na própria freguesia ou na zona onde esta se msere.
Entre as danças podem destacar-se:
- Caminho da Nossa Aldeia
- Pica o Pé
- Navalha
- Casa-te ó Prima
- Prima, ó rica Prima
- Os Olhos da Carolina
- Caiador
- Rebola a Bola
- Ti Manel das Rendas
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- Vira Enfeitado
- Dobadoira
- Indo Eu
- Bate Certo
- Fadinho
- Triste viuvinha
- Oh Pião
- Marcha de Maçaínhas
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É de salientar o facto de a maior parte destas cantigas ter sido escrita em honra de pessoas, ou mesmo figuras colectivas, que habitavam a freguesia - a senhora, a quem chamavam Carolina e que tinha uns olhos muito bonitos; o senhor que, como forma de subsistência, se dedicava a vender rendas e outras miudezas; aquele que fazia do caiar casas a sua arte; a mulher que se dedicava a dobar a lã para os muitos teares que existiam; as viúvas, numerosas na freguesia; as primas em idade de casar, entre outras figuras e histórias que se perdem no tempo.
Existem também as cantigas que fazem recordar utensílios e objectos utilizados por miúdos e graúdos - a navalha, indispensável às mais variadas actividades, a bola e o pião que faziam as delícias dos mais pequenos.
CANTARES REGIONAIS
Para além das danças e cantares recuperados pelo Rancho e pelo Grupo de Cantares, existiam também as famosas romarias cantadas por altura das romarias às igrejas e capelas da freguesia para veneração dos Santos:
- Romaria a Santa Eufêmia
- Romaria a Santo António
- Romaria ao Divino Espírito Santo
Hoje em dia, estes cantares de romaria são recuperados quando se realizam as respectivas festas e são apresentadas pelo Rancho Folclórico que recria todo um ambiente de
festa - desde as danças, cantares, romaria e lanches - de antigamente.
TRAJES REGIONAIS CARACTERÍSTICOS
As modas de tempos idos eram bastantes diferentes das que agora podemos apreciar. Na freguesia de Maçainhas, os trajes utilizados identificavam a classe social a que as pessoas pertenciam, a sua actividade profissional e mesmo a ocasião social a que as pessoas se deslocavam.
Os trajes mais representativos são os que remetem para as actividades exercidas por quem os usava: pastores, ceifeiras, malhadores, leiteiros, caiador, padeira, lavadeira, aguadeira, e trabalhadores do campo; para a classe social: lavradores abastados, viúva rica e senhora burguesa; para os acontecimentos sociais: traje de noiva, traje domingueiro, traje de ir à cidade.
Para além destes trajes existiam também as roupas de criança caracterizadas pela simplicidade e pela maior ou menor exuberância de acordo com a classe social a que pertenciam.
De referir que estes trajes se reportam a inícios do século passado.
JOGOS TRADICIONAIS
Se hoje em dia é bastante mais fácil às pessoas da freguesia deslocar-se à cidade da Guarda para aí assistirem a jogos das mais diversas modalidades, antigamente tudo era bem mais complicado e as pessoas ocupavam o seu tempo de um a forma lúdica, dedicando-se a jogos que hoje são considerados "tradicionais".
Dos mais antigos, que se reportam às décadas de 20 e 30 do século passado, destacam- se os seguintes:
- chona
- beto
- sapo
- péla - jogada durante a quaresma, em dias soalheiros
- pocarinha - tradicionalmente jogada na 2ª feira de Páscoa
- berlinde
- semana
- macaca
- jogo do lenço
- pedrinhas - tradicionalmente jogadas pelas raparigas
- rolão - jogo das escondidas
Actualmente já não se jogam, permanecendo apenas na memória dos mais idosos. No entanto, são recuperados quando as Associações da freguesia organizam actividades em que é possível colocá-los em prática, como já aconteceu.
GASTRONOMIA
A região em que se insere a freguesia de Maçaínhas de Baixo, possui uma gastronomia muito rica e variada. As receitas e os seus segredos eram transmitidas oralmente de mães para filhas e permaneciam nas famílias.
Por iniciativa da Srª Maria João das Neves, e com o apoio do Rancho Folclórico de Maçainhas foi feita uma compilação das receitas confeccionadas e mais tradicionais da freguesia, das quais se podem destacar:
| Sopas |
Canja de galinha caseira
Migas de matança
Sopa de grão de S. João |
| Peixes |
Peixes do rio fritos com malaguetas
Salada de bacalhau
Carapaus, sardinhas e trutas de escabeche |
| Carnes |
Cabrito assado na brasa
Arroz de cabidela
Ensopado de javali
Febra de porco guisada com míscaros |
| Acompanhamentos |
Arroz de espigos de couve
Papas de aroulo gordas
Salada de meruges |
Para além de todas estas delícias, não podem ser esquecidos os famosos enchidos da região - morcela, chouriça e farinheira; o bom pão de centeio cozido em fornos comunitários; as deliciosas compotas feitas a partir de frutos do pomar e de frutos silvestres; os conhecidos presunto e queijo de ovelha.
As origens da maior parte destes pratos típicos perdem-se no tempo, estando alguns ligados a certos acontecimentos - matança do porco, e certas épocas especiais - Natal e Páscoa.
Antigamente, existiam na freguesia muitas vinhas e a produção de vinho fazia parte da alimentação das populações. Este facto é confirmado pelas inúmeras lagariças que aparecem nos diversos pontos da freguesia.
No final do século XIX, uma epidemia de filoxera queimou as vinhas que não foram repovoadas nem voltaram a ser cultivadas.
Para além dos pratos típicos confeccionados a partir de carne ou peixe, a tradição gastronómica da freguesia é também rica em doces, cujas receitas eram também guardadas de mães para filhas. Confeccionados em dias de festa, do vasto rol de doçarias, podem ser destacados:
| Sobremesas |
Arroz doce
Leite creme |
| Bolos e Biscoitos |
Bola de Folar
Argolas fritas com açúcar e canela
Bolo Podre
Esquecidos
Filhoses
Pés - de - abóbora
Cavacas
Biscoitos de Requeijão
Rebuçados das Festas |
Tal como acontecia com outras receitas, estas eram transmitidas oralmente e, com a passagem de familiar em familiar, eram assegurados os truques e os segredos de confecção.
ARTESANATO
Campaínhas de bronze
O registo da produção de campainhas na aldeia de Maçainhas perde-se no tempo, remonta já a tempos antigos, não fora esta uma região de muita pastorícia.
Dizia-se arte de grandes segredos e permanecia dentro da família, sendo transmitida de pais para filhos, normalmente o mais novo para evitar a concorrência.
Por vezes, chegava-se ao extremo de proibir a entrada de pessoas na fundição, excepção feita ao professor e ao padre da aldeia.
Em tempos idos, havia em Maçainhas três fundições cada uma pertencente a uma família diferente. Foi mesmo a partir de Maçaínhas que esta tradição do fabrico de campainhas em bronze se espalhou a outras regiões.
A época alta no fabrico das campainhas acontecia durante a Primavera havendo nesta altura grande procura por parte dos muitos criadores de gado existentes na região.
As campainhas eram produzidas em bronze sendo todos os segredos que lhe diziam respeito (percentagem, proporção) passados oralmente de geração em geração, não havendo qualquer registo escrito.
Estes segredos faziam com que o som das campainhas não fosse sempre o mesmo. Actualmente existem em Maçainhas dois artesãos que se dedicam ao fabrico de campaínhas possuindo, nas suas casas, pequenas oficinas com fundições em moldes artesanais. A sua venda é feita, no local de fabrico, no entanto um artesão recorre ainda a feiras e mercados para o efeito.
Cobertores da papa
A industria têxtil em Maçainhas e nomeadamente a produção do cobertor de papa, remonta ao reinado de D. Sancho ll.
No reinado de D. José (1758), com o Marquês de Pombal, esta industria desenvolveu-se na zona da Covilhã e da Guarda: criaram-se novas fábricas e contrataram-se artífices no estrangeiro. Este progresso veio mais tarde beneficiar esta região nomeadamente Maçainhas. Consta que um tecelão da Covilhã terá fixado residência por estas paragens e terá transmitido os seus conhecimentos aos habitantes.
Há cerca de 100 anos. Havia 9 teares para o fabrico de cobertores de papa em Maçainhas que eram depois vendidos em feiras.
Os teares e a produção de cobertores foi aumentando de ano para ano, alargando-se depois a outras famílias.
Em 1930-1932 houve uma grande crise e foram poucos os fabricantes que resistiram.
Em 1938, começou a recuperação e, em 1942-1943, quase todas as famílias tinham um tear para fabricar cobertores chegando a existirem 35 teares.
Actualmente existe apenas um tear em funcionamento, pertencente ao senhor José Freire. O cobertor de papa é fabricado com lã churra de ovelha que é adquirida nos próprios agricultores e criadores de gado.
Inicialmente era aproveitada a lã local, actualmente é comprada na zona de Castelo Branco.
Brinquedos
Se hoje em dia as crianças se divertem com todo o tipo de jogos electrónicos, fruto do desenvolvimento tecnológico que caracteriza a sociedade, antigamente os brinquedos eram bem diferentes, bem como os materiais de que eram feitos.
Desde a roda de ferro que os miúdos utilizavam para dar voltas pela aldeia, passando pelos carrinhos de latão ou de madeira que faziam as delícias dos mais pequenos, pelos cavalinhos de madeira, pelas bonecas de trapos de que as meninas tanto gostavam, até aos instrumentos musicais feitos de forma rudimentar (latão, madeira, arame e corda) tudo era utilizado para brincar um pouco.